As réstias de cebola, símbolo da riqueza litorânea gaúcha desde o século 19, foram ensinadas em uma ação da SMAP no Cassino – Foto: Divulgação
Uma tradição para quem produz e comercializa cebola no município do Rio Grande levou o grupo denominado Guardiões de Sementes Crioulas a mostrar a técnica de fazer réstias deste produto. A arte é considerada como um bem cultural pelo secretário-adjunto da pasta de Agricultura e Pecuária (SMAP), Cledenir Mendonça. O ensinamento sobre como fazer uma réstia foi oferecido em uma oficina, no final da semana passada, na feira que ocorre todos os sábados na Avenida Atlântica, no balneário Cassino.
Sete guardiões ensinaram a técnica ao público presente na ação organizada com o apoio da Prefeitura Municipal, por meio da SMAP, e do escritório da Emater no Rio Grande. Uma escola da Vila da Quinta já demonstrou interesse sobre essa arte e deseja uma demonstração para os estudantes.
As réstias de cebola representam marcas da existência de um passado da principal riqueza litorânea gaúcha, desde o século 19. “Elas deixaram de ser obrigação nas relações de comércio com o Brasil, a partir de 1972. Participar da oficina foi uma viagem no tempo”, contou Mendonça, que também é um guardião de sementes crioulas.
O adjunto da SMAP lembrou que, antigamente, uma das principais formas de se vender cebola era em réstias. Além de ser uma atividade artesanal, essa arte tem como finalidade manter o produto por mais tempo. Em média, cada réstia contém 25 cebolas, o equivalente a 2,5kg. Por isso, ela também é considerada uma forma tradicional e histórica de comercialização, armazenamento e medição do volume de cebolas nas roças e mercados brasileiros.
O que é

Uma réstia é uma trança ou cordão de cebolas secas, feitas à mão, frequentemente com o uso de fibra de taboa, barbante, sisal ou junco, como foi utilizado na oficina realizada no Cassino. Era o principal meio de venda no passado, com registros de comercialização desde a década de 1830. Hoje, é mantida como tradição em áreas rurais para a venda direta ao consumidor.
A réstia não é apenas decorativa, ela facilita a ventilação dos bulbos, aumentando a durabilidade da cebola, que pode durar vários meses (até 7 meses). O processo envolve a cura da cebola (secagem) e a seleção por tamanho, cor e uniformidade, com o agricultor familiar trançando uma a uma.
Preços
No município do Rio Grande, a cebola ainda é a maior área de plantio para quem é agricultor familiar. “Muitos ainda vivem da cebola”, afirma Mendonça, que garante: “a cebola litorânea mantém maior qualidade e sabor, se comparado com outros mercados produtores”.
Atualmente, produtores rio-grandinos consideram que o preço da cebola ainda está muito baixo e que há muita produção e pouca demanda, devido ao ingresso de outros mercados nesse tipo de cultivo. Hoje, paga-se, em média, 80 centavos de real por um quilo do produto.
Capital nacional da cebola
A oficina trouxe à memória o auge da produção de cebola no Rio Grande e região. Conforme Mendonça, o porto local já foi o maior exportador desse produto, até a década de 30. “A partir dos anos 80, outros estados passaram a produzir e a concorrência fez diminuir a presença da cebola rio-grandina no restante do país”, relembra o adjunto da SMAP. Atualmente, são 110 produtores no Rio Grande, numa área total de 200 hectares. No auge, a produção municipal tinha uma área plantada de cerca de 800 hectares.
Com a queda na produção local, nem mesmo o título de capital nacional da cebola permaneceu na região Sul do Rio Grande do Sul. São José do Norte segurava essa honraria, considerada um orgulho para os nortenses. Embora o litoral gaúcho (incluindo o Rio Grande, São José do Norte, Tavares e Mostardas) tenha sido o principal produtor no passado, Ituporanga (SC) consolidou o título no atual cenário agrícola.
