Foto: Olharrg
Enquanto a maioria das iniciativas de combate à violência doméstica foca essencialmente no acolhimento emergencial e no registro de denúncias, um projeto nascido dentro de uma escola pública de Rio Grande decidiu atacar uma das raízes mais silenciosas e cruéis desse problema: a dependência econômica.
Criado pela Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, o Projeto Mulher transforma a indignação em oportunidade, oferecendo qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho para mulheres em situação de vulnerabilidade.
A iniciativa teve início em 2023, após debates entre alunos, professores e a Patrulha Maria da Penha. O diagnóstico do grupo foi claro: a falta de renda própria, a ausência de uma rede de apoio e a escassez de oportunidades profissionais são os principais fatores que aprisionam as vítimas em relacionamentos abusivos por anos.
Rompendo o ciclo da dependência
Sem experiência profissional anterior ou qualificação técnica, muitas mulheres enfrentam o dilema de não ter como sustentar os filhos caso decidam deixar o agressor. Entendendo essa realidade, o Projeto Mulher estruturou um modelo de capacitação rápida e acessível.
Com duração de aproximadamente três meses e sem exigência de escolaridade mínima, os cursos focam em áreas estratégicas para o comércio local:
- Educação financeira
- Desenvolvimento pessoal para o trabalho
- Informática, atendimento ao público e técnicas de vendas
- Empreendedorismo
O objetivo central é alcançar justamente aquelas mulheres que passaram anos afastadas do mercado de trabalho e precisam de um recomeço imediato.
Uma rede que vai além da sala de aula
O grande diferencial do projeto em Rio Grande é a compreensão de que o suporte à vítima não termina com o fim das aulas. Para garantir que as alunas consigam estudar e, posteriormente, trabalhar com dignidade e segurança, a escola articulou uma sólida rede de apoio institucional e jurídico.
A iniciativa envolve a Vara de Violência Doméstica, o Grupo Aurora, psicólogos e advogados. No setor psicossocial e logístico, o projeto faz a ponte para a obtenção de vagas em creches para os filhos das participantes e conta com o suporte da prefeitura e de órgãos municipais.
Há, inclusive, o desenvolvimento de um protótipo de sistema via WhatsApp. A ferramenta visa agilizar pedidos de ajuda e conectar de forma totalmente sigilosa as mulheres assistidas às empresas parceiras e órgãos responsáveis.
Empresas e profissionais que abraçam a causa
Para que a inserção no mercado e a autoestima dessas mulheres se tornem realidade, o comércio local e profissionais autônomos desempenham um papel fundamental como apoiadores e patrocinadores da iniciativa. Entre os parceiros que impulsionam o projeto em Rio Grande estão:
- Loja Ana Modas
- Loja Talento
- Loja Multi Presentes
- Loja Radical
- Studio Thielle Silva
- Cabeleireira Daiane Porto
- Arte em Mãos
Essa rede de comércio e serviços locais atua diretamente na acolhida, suporte e na viabilização de oportunidades de emprego e geração de renda para as alunas do projeto.
Resultados reais: Números que transformam histórias
Os dados mais recentes do projeto comprovam a eficácia da ação no município. Em 2025, das 18 mulheres que participaram das turmas, 9 conseguiram emprego formal e 2 abriram o próprio negócio — resultando em mais de 61% das participantes ativas no mercado de trabalho ou empreendendo. As contratações ocorreram em padarias, hotéis, supermercados e lojas da cidade.
Em 2026, as novas turmas registram um índice de evasão quase nulo: foram apenas duas desistências, um número altamente positivo considerando o cenário de extrema vulnerabilidade social enfrentado pelas alunas.
Mobilização comunitária e próximos passos
Sendo uma iniciativa da comunidade escolar pública, o Projeto Mulher mobiliza diferentes setores da Escola Getúlio Vargas. Professores ministram as aulas voluntariamente, estudantes de secretariado organizam os eventos e alunos de outras áreas colaboram com as ações de marketing.
Atualmente, para expandir as atividades e garantir um atendimento ainda mais acolhedor e sigiloso, o projeto busca a doação de um container. A estrutura será instalada nas dependências da escola para funcionar como um espaço exclusivo de capacitação e acolhimento das mulheres.
Em um cenário nacional onde os índices de violência doméstica permanecem alarmantes, a iniciativa rio-grandina demonstra que o caminho para romper o ciclo da violência passa, obrigatoriamente, pela carteira de trabalho assinada e pela autonomia financeira. Para essas mulheres, ter o próprio salário não é apenas uma questão de independência; é uma questão de sobrevivência.
